O trono é do Cordeiro e dos mártires

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Um teólogo disse certa vez com tom de ironia que existem três tipos de evangélicos: os de direita, os de esquerda e os que estão diante do trono. São os crentes que estão mais preocupados em maquinar meios para entrar “na sala do trono” do que em pregar o evangelho de justiça do Reino.

Deixando um pouco de lado os dois primeiros tipos de evangélicos, é do terceiro tipo que queremos falar. Melhor ainda: deixemos que João, o profeta visionário, fale por nós em Apocalipse 7.9-15. Nesse caso, o texto confirmaria a obsessão dos “caça-tronos”, que gostariam muito de engrossar essa multidão dos que adoram, não fosse por um detalhe que muda o sentido imaginado: a grande multidão que João vê trata-se de mártires que passaram pela aflição e opressão impostas pelo império romano. A cena exige de nós uma guinada para trás, de modo que possamos entender o que esses mártires, marcados pelo sofrimento, estão fazendo aí num momento de aparente glória e triunfo.

Se olharmos alguns capítulos antes, e seguirmos o trajeto por eles indicado, talvez cheguemos a uma conclusão diferente daquela que os “levitas de plantão” chegam.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que as visões que João teve estavam centradas em um trono que ele viu no céu, sendo que o cenário principal é um culto que vai aos poucos agregando vários personagens. De certa forma, o que ele viu é um tipo de processional, isto é, uma liturgia que se processa até o seu ponto culminante, até o seu momento de ápice. O que não é nada velado, pois uma simples leitura mais cuidadosa em qualquer Bíblia pode escancarar isso no texto.

Em segundo lugar, e isso é extraordinário, de todos os seres que surgem diante do trono, os mártires tem acesso ao mesmo trono tão somente através do Cordeiro como havendo sido morto (Apocalipse 5:6-10).

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Por isso, esconder que o final desse culto no céu vai dar nos mártires é impossível. Mais do que isso, o culto parece ser em favor desses mártires, e não há santo que entre diante desse do trono se não for mártir. Ou, se quiserem, o acesso ao trono é muito restrito, sendo que o culto começa de cima para baixo, isto é, começa pela descrição dos “obstáculos” que estão ao redor do trono, e que impedem o acesso direto a ele, chegando aos seres que estão diante dele, para só então descer e chegar às criaturas da terra. Veja a ordem do culto:

  1. Início do culto: descrição dos obstáculos que impedem o acesso direto para o trono de Deus (Ap. 4:2-7);
  2. Primeiro cântico: Seres Viventes (Ap. 4:8);
  3. Segundo cântico: Anciãos (Ap. 4.9-11);
  4. Momento de arrependimento: João chora (Ap. 5.1-5);
  5. Cântico coral com orações: Seres Viventes e Anciãos (Ap. 5.6-10);
  6. Cântico coral: Miríades de anjos (milhares e milhares) – (Ap. 5:11-12);
  7. Cântico Coral: Toda criatura (Ap. 5:13-14).

A pergunta chave para o texto é: por que Cristo se apresenta diante do trono como Cordeiro e não como Rei? A resposta que parece lógica no próprio texto é: porque Cristo, como Cordeiro, o crucificado, torna-se para os mártires da comunidade joanina o mártir modelo. Só há triunfo verdadeiro se ele se parecer com os mártires que estão agora diante dele; só há justiça se os cristãos martirizados compreenderem que no fim, a justiça de Deus vence a história da injustiça. Nada melhor do que alguém que sofreu (o Cristo martirizado) para ter empatia com quem está sofrendo (o cristão martirizado). Nada faz mais sentido nesse texto do que saber que o caminho do trono é também o caminho da cruz.

Não estamos fazendo apologia ao sofrimento e nem quereremos chegar à conclusão precipitada que, se o Apocalipse diz que os mártires são os legítimos herdeiros do trono, logo isso deve ser verdade em todas as épocas da história do cristianismo. Entretanto, apesar de não podermos categorizarmos e concluirmos que os mártires são os verdadeiros adoradores do trono, ou que só se pode chegar ao trono pelo sofrimento, uma coisa é certa: a restrição ao trono continua firme e o acesso pelo Cordeiro permanece intacta.

Pensando nisso, o comportamento dos atuais cultuadores do trono parece mais do que equivocado, no mínimo alienante. Afinal, olhar para o trono e não ver a cruz é como olhar para o mundo e não ver o sofrimento. O que dá no mesmo se dissermos que o culto e a adoração não são lugares para fugas, não são espaços apropriados para sair correndo da realidade. A transcendência não pode nos alienar do mundo, mas nos devolver à ele. Nesse sentido, deveríamos ser todos “protestantes”, com o desejo de retornar ao mundo e derramar sobre ele a justiça que vence a opressão.

Para piorar, apareceu em uma revista evangélica de grande circulação a propaganda de lançamento de um CD que dizia: “Conseguimos gravar a unção” (sic). Unção, mas que unção? Será eles queriam dizer com isso que conseguiram gravar os momentos “reais” de verdadeira adoração, e não apenas algo “ensaiado”? No imaginário cúltico evangélico isso poderia soar da seguinte maneira: “Nós conseguimos ‘congelar’ o exato momento em que nossas músicas estavam fazendo Deus se fazer presente, o exato momento em que nós sentíamos que estávamos ‘diante do trono’”.

São situações como essas que nos fazem pensar que os cultos da maioria das igrejas evangélicas estão marcados por triunfalismos facilmente desmascarados pela realidade e por uma ousadia, para não dizer arrogância, que está muito distante dos fenômenos que ocorrem cada vez que aparece a figura do trono de Deus nas Escrituras: relâmpagos, trovões, seres “terríveis”, olhos percrustradores, espíritos de fogo. Assim como os as sensações que acompanham tal cenário: medo, arrependimento, prostração, pernas trêmulas, diarréia, gagueira, vontade de se esconder. É o tremendum et fascinorum apontado por Rudolf Otto, o indizível, conforme nos diz Schelling, o temor e tremor de Kierkegaard, o inefável do apóstolo Paulo e dos poetas de tempos distantes. Enfim, o trono deixou de ser um alvo buscado com reverência e sentido de justiça e virou “arroz de festa”.

Não estamos afirmando que o culto cristão tem uma única dimensão e que Deus é “fogo consumidor” para aqueles desavisados que chegam perto demais do trono. Por outro lado, a sensação é que o mistério se esvaziou, sendo substituído por uma atitude muito sem vergonha, sem o vexame que é estar na presença do que se assenta no trono. Vexame daqueles que nos fazem olhar para nós mesmos antes de olhar para o trono e dizer’: “Ai de mim, que vou perecendo!” (Isaías 6:5). Vergonha daqueles que olham para o mundo antes de chegar perto do céu e percebem que o seu culto ainda pode dar esperança aos mártires, aos sofredores que precisam de carregar a sua cruz e querem a revelação de Deus, nem que seja por uma frestinha de glória.

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