Entendendo Samuel 28

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Esse texto talvez seja um dos mais polêmicos da Bíblia, porque em parte é usado para defender a possibilidade de falar com espíritos de mortos e em parte é usado para atacar adivinhos e congêneres.

Não cabe aqui uma interpretação apurada do texto, ou seja, um estudo muito aprofundado pela via da lingüística, da crítica textual, da crítica das fontes, da arqueologia, etc. Então, vamos partir de duas premissas básicas, amplamente defendidas e exercitadas pelos estudiosos do Antigo Testamento: 1) O texto final escrito no livro de Samuel é muito possivelmente da época do pós-exílio babilônico, portanto, com uma forte influência da tradição sacerdotal e de suas concepções de religião verdadeira; 2) A narrativa não esconde as suas preferências sacerdotais e deixa vestígios claros na construção do texto. Pensando nisso, vejamos:

1)    A narrativa está dentro de um contexto maior de predileção por Davi e marginalização de Saul. Logo, o texto vai reforçar ainda mais essa diferença. O capítulo 28 dever ser lido com esse sentido principal. Ou seja, mais do que tudo, a mensagem fundamental do texto é destacar Davi e rebaixar Saul.

2)    Na narrativa a pitonisa e os adivinhos são as “vítimas” e Saul o “crápula”, e não o contrário.

3)    A narrativa é inicialmente condescendente com Saul, que teria “obedecido” Samuel e desterrado os adivinhos e encantadores.

Imagem Bíblica

4)    Mas, como tudo que é bom acaba logo e depois que o “gato” morre (Samuel) o “rato” faz a festa (Saul), agora a narrativa é “cruel” e tenta mostrar um Saul que cai na tentação de voltar aos adivinhos, mesmo não tendo a menção de sua proibição. É claro que essa proibição está implícita na relação de Saul com Samuel, que agora está morto.

5)    O que é mais estranho no texto é uma pitonisa demonstrar uma postura que nega a sua função de adivinha, especialmente porque sobrevivia disso. Na narrativa ela acaba se tornando uma porta-voz da ética sacerdotal israelita e não dela mesma. Ela mesma “se proíbe”!!! Ou, de outro modo, como uma médium pode ter mais consciência e temor de Deus do que um “crente” como Saul? De duas, uma: ou médiuns eram comuns como portadores de oráculos divinos, tanto quanto os profetas e sacerdotes (que Saul consultou antes), ou ela carrega o ideal (e a teologia) de quem está redigindo o texto, isto é, a médium teme a Deus mais que Saul, que é aqui “zombado”.

6)    Outra coisa “estranha” no texto é Saul jurar pelo Senhor que nenhum mal seria feito à pitonisa. A pitonisa acreditava no Deus pelo qual Saul jurou? Bem, para os crentes em geral não. Para eles a pitonisa não passa de uma pagã herética que não crê em Deus, porque, se acreditar, terá que aceitar que Deus permite adivinhos. O problema é que a fé da pitonisa naquele momento da história é tão israelita quanto a de Saul, e é por isso que essa função de adivinho era tão comum em Israel. Portanto, o problema de adivinhos na antiguidade de Israel é relativo: algumas vezes eles são permitidos e incentivados, outras vezes não; em alguns locais eram permitidos em outros não.

7)    É interessante notar que fica clara na narrativa a proibição de consultar adivinhos, mas, uma vez consultada, a adivinha não fala uma palavra sequer que não seja condizente com o fim de Saul. Ela apenas confirma o que já se sabia: o seu reino será dividido e terá um fim trágico. Ora, pelo menos nesse texto, então, o problema parece que não é com a adivinhação (que profetas também realizavam) e sim com a função. Novamente o texto deixa vestígios de um passado remoto misturado com uma releitura mais tardia, pós-exílica. No passado remoto, adivinhar não era problema, agora seria?

8)    Alguns especulam que a adivinha errou quando disse “amanhã tu e teus filhos estareis comigo”, afirmando que Saul morreu muitos dias depois e não todos os filhos. Ora, amanhã nesse texto pode não ter o sentido de amanhã literal, senão de futuro, de dias seguintes. Por outro lado, mesmo que tenha esse sentido literal, não podemos esperar de adivinhações e profecias uma exatidão histórica. Outra possibilidade é que o texto foi elaborado pela tradição sacerdotal para fazer de conta que a pitonisa “errou”. Isso eles poderiam ter feito porque a história estaria sendo relida “post factum” (depois do fato ocorrido), ou seja, já se sabe qual é o resultado dos eventos passados e, por isso, mesmo, eles podem ser mudados como queremos e “inventar” um novo resultado.

9)    Em nenhum momento se nega que a figura da aparição seja Samuel. O que nos leva a pensar que o problema do texto não tem nada a ver com a consulta de mortos e sim com a consulta de adivinhos.

10) “Subir” não significa que no lugar de Samuel o que apareceu foi um demônio que “subiu” do inferno. Não acrescentemos o que não está no texto. Aliás, demônios só passam a ser percebidas e incorporadas como entidades do mal em Israel depois do contato com a Babilônia. Mas pode ter certeza que esse texto não é um desses casos de possessão ou demonização.

11) No final, a pitonisa, em contraste com Saul, é caracterizada na narrativa como alguém solícita e boa, enquanto Saul…

12) Conclusões: 1) O texto não serve para negar a consulta de mortos. Outros textos fazem melhor esse papel; 2) O texto não serve para afirmar que Samuel não estava lá, que na verdade era um demônio; 3) O texto não serve para achincalhar adivinhos e encantadores; 4) O texto serve para mostrar o processo de transição do reinado entre Saul e Davi. Nesse caso, Saul é o personagem do foco narrativo e não a pitonisa, Samuel ou demônios.

13)  A narrativa é extremamente ácida e irônica com Saul e é muito pobre para validar crenças em mortos ou negar essa crença, assim como é pobre para validar adivinhações ou proibi-las fora do contexto sacerdotal de Israel.

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