Deus e o problema do mal – Uma entrevista improvável com teólogos inexistentes – Parte 1

rss

Um pouco nervoso, apesar de estar apresentando o seu centésimo quinto programa, Zarmino Calvino está pronto para entrar no ar. Arruma o paletó, passa o dedo nas sobrancelhas e respira fundo. Entra…
– Boa noite meus queridos telespectadores! Mais uma vez estamos aqui com o nosso programa “Caverna dos Teólogos”!
– Comigo plateia: “Mexeu com Deus, mexeu comigo!”
– Ok! Vamos ao nosso tema de hoje: Teodiceia. Para quem não sabe, Teodiceia é uma palavra grega que significa “justiça de Deus”. Na verdade, é uma área da Teologia e da Filosofia que se interessa em explicar a natureza de Deus diante do sofrimento humano.
– Quero lembrar como exemplo para o nosso tema, o caso terrível da Sra. M. Sim todos devem lembrar o que eu saiu amplamente nos jornais a semana toda. Ela foi violentamente estuprada durante horas e por fim assassinada brutalmente. Testemunhas dizem terem ouvido ela gritar várias vezes aterrorizada antes de ser silenciada pelo criminoso. Mais um caso horrível de violência em nossa cidade.
– Para debater esse caso, convidamos dez dos melhores teólogos indicados pela revista “Fé de Pensar”.
Em fila indiana entram cinco teólogos de cada lado do estúdio.
– Podem aplaudir!
– Aqui estão eles, munidos de suas Bíblias, livros, manuais de teologia, comentários e muitas horas de estudos metafísicos!
– Enquanto vocês se ajeitam, vou direto ao assunto. De acordo com a tradição, desde a Idade Média foi determinado que, dentre as muitas qualidades de Deus, Ele é Onipresente, Onisciente e Onipotente.
– Aliás, parece que vocês chamam essas qualidades de “atributos incomunicáveis?” É isso mesmo doutor João Sistematho?
– É isso mesmo!
– Doutor Sistematho, pode nos explicar porque “incomunicáveis”?

Deus e o problema do Mal

João Sistematho fazia inveja pela sua capacidade de explicar tudo em três partes. Ninguém sabia como certas coisas tinham sempre uma terceira forma de se compreender. Será que ele inventava? Dessa vez foi avisado para ser sucinto. Ele foi, pois outra característica de que Sistematho se orgulhava era a capacidade de seguir regras. E, seguindo a regra, respondeu:
– Porque só Deus tem essas qualidades. Ele não pode comunicá-las a ninguém, e ninguém pode tê-las.
– Certo, entendi.
Zarmino, puxando do bolso uns oclinhos de leitura, olha para a ficha à sua frente:
– Bem, então a pergunta que tenho para vocês é simples: Porque Deus sendo Bom, além de Onipotente, Onipresente e Onisciente não fez nada para salvar a Sra. M. daquela morte terrível?
O doutor Sistematho, aproveitando que foi o primeiro a falar, com cara de piedade e uma Bíblia pousada em seu colo, foi logo dizendo:
– Deus poderia ter feito algo, mas, obviamente, era melhor para o assassino poder exercer o seu livre-arbítrio do que tê-lo restringido. Deus lamenta profundamente as escolhas que ele fez, mas esse é o preço a pagar por se ter um mundo com agentes livres, afinal, as pessoas do mundo não são robôs. As ações do criminoso com certeza não estavam sob o controle total de Deus. Portanto, Deus não pode ser responsabilizado pelas ações dele.
– E os senhor, professor Ismael Pacífico, qual a sua explicação?
– A resposta não é tão simples assim. Deus até poderia ter feito um milagre, mas, por outro lado, não seria esta uma oportunidade perfeita para algum transeunte desarmado exercer heroísmo altruísta, caso passasse por ali? Se Deus fizesse alguma intervenção todas as vezes, então ninguém poderia jamais exercer tal virtude. De fato, provavelmente, ficariam todos muito mal habituados e egoístas se Deus impedisse todos os atos de violação. Foi por isso que Deus não fez nada. É pena que ninguém tenha aparecido para intervir heroicamente, mas, esse é o preço a pagar por se ter um universo onde as pessoas podem mostrar virtude e maturidade. O mundo não é sempre amor, paz e rosas.
Cláudio Fiobamba, sisudo e com olhar fatalista, sem esperar Zarmino, disse com certa irritação:
– Eu nem sequer considerei a hipótese de Deus intervir. Provavelmente Deus teria feito algo naquele momento não fosse a Sua onisciência. O assassinato da Sra. M. parece bastante horrível quando considerado isoladamente. Mas, quando você o coloca no contexto com o resto da vida, acrescenta algo à beleza geral da imagem maior. Os gritos da Sra. M. eram como as notas discordantes que tornam uma excelente peça musical ainda melhor do que se todas as suas notas fossem perfeitas. Deus sofreu com ela. Pensem bem na beleza da realidade: a Sra. M. morre aqui, mas uma vida nasce lá. Já ouviram falar no “efeito borboleta”?
Zarmino interrompe:
– Mas professor Cláudio Fiobamba, o “efeito borboleta” não é apenas uma alegoria para representar um padrão no aparente caos?
Fiobamba responde, ainda mais irritado:
– É claro que não! Não existe o caos, só existe o padrão. Deus jamais abandonaria o universo. Ele pode não intervir nas situações específicas, mas nas gerais, Sua providência é marcante.

Interagir Imprimir Digg it Del.i.cio.us Twitter comentários
Versículo do dia  | Todo dia teremos versículo para você.
Mateus
5:3

“Bem – aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.”

Receba versículos da Biblia em seu email, eles irão edificar e abençoar seu dia.
Digite seu e-mail no campo abaixo:
Artigos Veja mais artigos
novo Conhecendo as “sete inteligências” da teoria de Howard Gardner e pondo em prática na Igreja Se você leu o texto “As inteligências múltiplas e os seus dons”, que discorria sobre as inteligências múltiplas de Howard Gardner e...

 

Comunidade | Siga nas redes sociais

Copyright 2010-2017 - Futtura